Que Ele cresça e eu diminua

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Passadas as festas de final de ano, a Liturgia veio nos pôr no Tempo Comum que seguirá até quarta-feira de cinzas quando começa a Quaresma. No domingo passado, o Evangelho da Santa Missa trouxe a figura de João Batista, aquele que apresentou Jesus Cristo ao público, pondo em destaque a sua identidade messiânica e salvífica como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Porque, como dissera o Batista, importa que Cristo cresça e eu desapareça. Não demorará muito e João sairá de cena.

No domingo de hoje, terceiro do Tempo Comum, São Marcos no Evangelho da santa Missa – Mc 1,14-20 – diz rapidinho que João Batista fora preso e depois dá início à longa narrativa da vida pública de Jesus. Então, escreve ele, Jesus foi para a Galiléia e começou aí nesse lugar e momento a pregar o Evangelho de Deus, dizendo: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Em vista dessa novidade, Jesus conclui seu anúncio inicial, fazendo uma forte chamada a todos: “Convertei-vos e crede no Evangelho!”
Consequentemente, Jesus passou a convidar auxiliares para ajudar nessa sua missão de evangelizar. Então, Marcos conta que Jesus, passando pelo Mar da Galiléia, viu os irmãos Simão e André, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores, e lhes disse: “Segui-me e Eu farei de vós pescadores de homens”. Deixando imediatamente as redes, eles seguiram a Jesus. Um pouco mais adiante, Jesus viu outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, que estavam consertando as redes, e logo os chamou também: Eles deixaram o pai com os empregados e partiram a seguir Jesus.
Em resumo, Marcos acentua que Jesus, ao entrar na cena da vida pública e iniciar a sua atividade apostólica começou pregando o Evangelho de Deus, pondo em destaque três pontos. Primeiro, o núcleo central do seu Evangelho é: “O tempo se completou e o Reino de Deus chegou”. Segundo, a primeira consequência prática para todos é: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Terceiro, o chamado de pessoas para ajudar nessa missão começou com a vocação dos primeiros discípulos: “Vinde após mim e vos farei pescadores de homens”. Estes pontos articulam o projeto do Reino de Deus, núcleo central do Evangelho, o qual, anunciado por Jesus no tempo (depois da prisão do Batista) e no espaço (Galiléia), trouxe ao mundo a alegria do conhecimento de Jesus e da possibilidade do encontro com Ele, e a todos o convite à adesão a Jesus mediante a fé e a conversão no pensar e agir por causa do Evangelho e ao seu seguimento como discípulos para o segui-Lo aonde for e, dentre estes, “apóstolos” para “ficarem com Ele” e serem “pescadores de homens”. “Alegria”, “fé e conversão” e “seguimento” são palavras chaves que se articulam desde a entrada em cena de Jesus na vida pública e o primeiro anúncio da “Boa Nova do Reino de Deus”.
Jesus vai dizer que o Reino de Deus que já chegou alcançará a sua plenitude na vida eterna. O Reino de Deus neste mundo é um projeto real e concreto, mas em construção. Por exemplo, os bens do Reino como fé, esperança, caridade, justiça, compaixão, fraternidade, progresso, paz, etc. são sementes germinando e plantas produzindo frutos, mas que devem ser cultivadas e desenvolvidas até cobrirem toda a face da terra rumo ao novo céu e a nova terra, o Reino de Deus pleno e eterno. Jesus dedicou toda a sua vida terrena para deslanchar a implantação do Reino de Deus, uma sociedade organizada conforme Deus quer, na qual Ele é tudo para todos. A fim de realizar esta magnífica e extraordinária tarefa, Jesus procurou, desde o início, chamar colaboradores para auxiliá-Lo. E continua a fazê-lo na história ainda hoje.
A Igreja no Brasil instituiu 2018 como Ano do Laicato, isto é, dos fiéis cristãos leigos e leigas. O Documento da CNBB nº 105 fala da importância dos “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade”. Acentua que “Ser cristão, sujeito eclesial, e ser cidadão não podem ser vistos de maneira separada. O Documento de Aparecida, rejeitando este dualismo, ainda presente na mentalidade de muitos, afirma que ‘a construção da cidadania, no sentido mais amplo, e a construção de eclesialidade, é um só e único movimento’ e levam os cristãos leigos à comunhão e participação na Igreja e à presença ativa no mundo” (n. 164). Os cristãos leigos devem “transitar do ambiente eclesial ao mundo civil para somar com todos os cidadãos de boa vontade na construção da cidadania plena para todos”, como conclusão lógica do ensinamento de Jesus: ‘Vós sois o sal da terra, a luz do mundo e o fermento na massa’ (n. 166).
Os cristãos leigos e leigas, por meio dos carismas, serviços e ministérios recebidos da efusão do Espírito Santo pelo Batismo e a Crisma e sustentados pela Eucaristia, se apresentam, verdadeiramente, capacitados para a vida de comunhão e participação na Igreja e a atuação eficaz na sociedade. Chamada a se transformar em Igreja toda ministerial, a Igreja está aberta a acolher e a incentivar a participação dos leigos e leigas como “verdadeiros sujeitos eclesiais, com participação consciente, ativa e adulta” (cf. n.156). O Documento 105 aponta como âmbitos de comunhão eclesial e atuação do leigo como sujeito: Família, Paróquia, Conselhos pastorais, Assembleias e reuniões pastorais, Pequenas comunidades eclesiais, Movimentos, Associações e Novas comunidades (cf. ns: 136-148). Quanto ao serviço cristão ao mundo, o Documento enfatiza que “É missão do povo de Deus assumir o compromisso sociopolítico transformador, que nasce do amor apaixonado por Cristo” (n. 161). E aponta como os areópagos modernos para a ação dos cristãos leigos: A Família, O mundo da política e das políticas públicas, do trabalho, da cultura e educação, das comunicações, o cuidado com a Casa Comum e outros campos de ação (cf. ns: 255-273).

 


(CNBB)